Caros amigos, irmãos… compatriotas.

Escrevo estas linhas, expressando alguns pontos de vista relacionados com a minha recente experiência de andar pelo país (durante as férias que gozei no mês de Setembro de 2007), usando como gancho uma deslocação por terra de Luanda ao Wambu (não estou a usar a designação oficial: Huambo, adoptada pelos portugueses por “losomorphização” do nome original), em companhia de dois amigos e colegas: os juristas Lino Kayumbuka e Kambili Munene.

A referida viagem ocorreu no quadro de uma excursão promovida pela Associação dos Naturais e Amigos daquela província (ANAPHUA). Também pude passar uns dias no Kunene, o que reforça a convicção de que é gratificante e bastante enriquecedor andar pelo país adentro.Seiscentos quilómetros de muita beleza.

Voltando à excursão, vale dizer que a mesma fez com que tivéssemos a oportunidade (mais uma, para quem tem viajado de carro por este país magnífico) de apreciar a espantosa e diversificada beleza natural que – parecendo imitar obras de arte – torna único cada um dos pontos do caminho que seguimos em direcção ao Wambu.

Desde Luanda, deliciamo-nos com as paisagens, passando por Katete (Bengo), Nzenza do Itombe, Ndondo (Kwanza Norte)… extensos e magníficos segmentos da província do Kwanza Sul, incluindo as localidades de Kibala e Waku Kungu.

Durante a viagem, foi possível testemunhar directamente a recuperação das infra-estruturas básicas do país, com destaque para as Estradas Nacionais (ainda há muito trabalho a se fazer para a recuperação das estradas dentro das localidades, passo importante para a recuperação das suas feições urbanas, ainda visíveis por trás de escombros e da poeira).

Grande parte das vias estão reabilitadas e sinalizadas, ou muito próximo disso. As obras que estão a ser feitas ao longo de todo o trajecto parecem desenhar no horizonte o dia em que será possível sair de Luanda para o Wambu ou para o Uíje em pouco mais de cinco horas de viagem automóvel. Pouco depois do desvio para Kambabi, deparamo-nos com um grupo de cerca de trinta jovens angolanos, que trabalhavam no estabelecimento dos limites da estrada, na sinalização das suas margens e das curvas que encerram alguma perigosidade.

Trocamos com eles algumas palavras de encorajamento e, a seu pedido, prometemos fazer-lhes chegar algumas garrafas para aquecer as suas noites no meio da mata… confesso não termos podido cumprir com a promessa. Quando voltamos do Wambu, o único líquido que estávamos em condições financeiras para comprar era gasóleo para o carro… o nosso orçamento tinha quebrado algures na discoteca oxikenlu (trovão, em umbundu) e nas pequenas compras que fizemos pelo caminho. Ficaria mal se chegássemos a Luanda sem comprar, pelo menos, alguns lohengos, algumas batatas, abacates, cebolas… também havia tomates a venda, mas ninguém admitiu que precisasse comprar.

Retomando a questão das estradas, há alguns anos não se poderia imaginar que actualmente fosse corriqueiro chegar a Benguela em cerca de cinco horas. Nunca fui pessoalmente a Malanje, mas as notícias sobre o estado das estradas que ligam a capital do país às terras da Matamba também são bastantes animadoras.

Uma vez reabilitadas estradas até Malanje, Luanda estará igualmente mais próximo das Lundas e do Moxico, com consequências positivas. Por exemplo, tais melhorias significariam a diminuição do preço dos bens e serviços naquelas bandas (em consequência da diminuição dos custos de transportação dos meios utilizados destinados ao consumidor final).

Uma nação forjada pela guerra.

Quando se viaja de carro pelo país, a (re) tomada de consciência sobre a grandeza de Angola e sobre as belezas de suas paisagens e gentes pode remeter-nos à uma reflexão, ainda que por breves segundos, sobre a questão de saber se o nosso país já pode, ou não, ser considerado uma nação.
Numa breve cábula cibernética feita no site “Wikipédia, a enciclopédia livre”, pudemos obter os seguintes subsídios, relacionados com o conceito e a idéia de Nação: «Pela sua origem etimológica, do latim natio, de natus (nascido), já se tem a idéia de que nação significa a reunião de pessoas, normalmente da mesma raça, falando o mesmo idioma, tendo os mesmos costumes e adoptando a mesma religião, formando, assim, um povo, cujos elementos componentes trazem consigo as mesmas características raciais e mantêm-se unidos pelos hábitos, tradições, religião e língua.

Mas em bom rigor, os elementos território, língua, religião, costumes e tradição, por si sós, não constituem o carácter da nação. São requisitos secundários, que se integram na sua formação. O elemento dominante, que se mostra condição subjectiva para a evidência de uma nação, assenta no vínculo que une estes indivíduos, determinando entre eles a convicção de um querer viver colectivo (o destaque é nosso). É, assim, a consciência da sua nacionalidade, em virtude da qual se sentem constituindo um organismo ou um agrupamento, distinto de qualquer outro, com vida própria, interesses especiais e necessidades peculiares.»

Ora, não nos parece requerer uma observação particularmente científica, a percepção de que as diferentes partes do nosso país estão ligadas de um modo forte e sólido, independentemente das razões que cada um entende estarem na base desta unidade.

Sobre este particular, parece ser apropriado reproduzir aqui a minha perplexidade, quando, recentemente, um amigo meu (que conta com bem vividos sessenta e um anos de vida), disse que a guerra em Angola foi um dos maiores factores de unidade nacional.

Segundo ele: “por causa da guerra, as pessoas prestaram serviço militar e viveram situações marcantes em diferentes partes do país, independentemente do local em que nasceram. Fizeram amigos, viveram amores, perderam parentes, amigos… e até mesmo partes do próprio corpo, em vários pontos do país, de Cabinda a Cunene. Essas experiências ligam para sempre as pessoas que as viverem, aos locais em, que as mesmas tiveram lugar, independentemente deste ser próximo ou distante de onde nasceram.

A propósito, sou do grupo de pessoas que propende a defender poder-se já falar que Angola é uma nação. Inspirando-me na cábula acima reproduzida, diria que diversidade do substrato demográfico do Estado Angolano não parece prejudicar “a convicção de um querer viver colectivo” que faz de nós uma nação.

Aliás, quando se anda pelo país, leva-se algum tempo a perceber quando passamos do território de uma província para o de outra… da zona de um grupo etno-linguístico para um território habitado predominantemente por pessoas de outro grupo. Todos temos algo em comum.
Na verdade, vários dados históricos (muitos dos quais não se encontram em qualquer obra escrita, mas são transmitidos há várias gerações, por meio tradição oral) revelam que a relação de irmandade entre os diferentes segmentos populacionais de Angola é muito anterior à proclamação da Independência Nacional, em 1975, e igualmente anterior ao processo de colonização.

Admitindo-se que temos uma origem comum (ou, no mínimo, relacionada) e uma história conjunta, parece defensável a idéia de que as gerações actuais e futuras de angolanos têm o dever de agir, diariamente, no reforço de uma Angola-nação.

Aliás, a diversidade linguística, étnica e de antecedentes genéticos dos angolanos, parece poder ser encarada e usada como factores adicionais de beleza e força do país.

Bem haja Angola!

Forte abraço,

ANTÓNIO KASSOMA