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TRAÇOS DO CASAMENTO TÍPICO DO BAILUNDO

Tal como no Direito Positivo e nas diversas regiões do país e do mundo o casamento tem regras e formalidades próprias, na localidade do Bailundo, um dos onze municípios da província do Huambo, esta realidade não se faz excepção. Também ali o casamento segue um processo específico. Aqui, ressaltaremos alguns aspectos, tentando, sempre que possível, apresentar o equivalente em Umbundu, a língua nativa.

mapa de AngolaNesta localidade, o sistema de parentesco vigente é o matrilinear, onde se tem com referencia o progenitor comum do sexo feminino. Neste sistema, os poderes paternais sobre os filhos são exercidos pelo tio ou pela tia materna, isto é, irmãos da mãe. Cabe a eles, entre outra tarefas, entregar os sobrinhos para casamento e a sua iniciação sexual (okukolisa avava, em Umbundu). No caso dos rapazes, a sua iniciação sexual recai sobre as primas da mãe e não, propriamente, sobre as irmãs desta, porque estas são também consideradas e tratadas como mãe.

Ainda na infância dos futuros cônjuges ou mesmo durante o período de gestação, duas famílias podem já fazer acordos de casamento das crianças. Nessas ocasiões, a família do rapaz faz a entrega de certos bens família da rapariga. Normalmente, esses bens variam consoante aquilo que é comum na família ou aquilo que a família mais produz. Assim, se a família é criadora de gado, entrega gado; se produz milho, entrega milho, etc., etc. Nessa perspectiva, o noivado (em Umbundu, okuvala, literalmente, ocupar) pode começar muito cedo e ate mesmo antes de nascerem os visados.

Apesar de esses acordos de casamento não vincularem obrigatoriamente as pessoas em causa, existindo sempre a possibilidade de não cumprirem, a sua negação, quando em “idade núbil”, pode implicar o seu afastamento ou isolamento dos demais membros da família. Quando uma pessoa não aceita um acordo de casamento, rejeitando o parceiro ou parceira que escolheram para ela, os mais velhos da família (tios, pais, avos) ameaçam-na dizendo que atchi walinolehã otcho tchove ou walikuminhã otchipa, lolona viatcho wuambata. Com estas expressões em Umbundu querem dizer que já que te negas a casar com o parceiro ou parceira que nos te arranjamos, terás de suportar sozinho todos os problemas que surgirem na tua casa, porque quem quer a pele de um animal, deve aceitar também os piolhos (olona) que ela transporta. Por isso, normalmente, se submetem ao casamento.

Estes acordos de casamento não fazem a regra, o normal é os jovens escolherem-se entre si. Quando isto acontece, o rapaz deve comunicar o facto ao tio materno e este esclarecê-lo-á de que tipo é a família da moça, porque são os mais velhos que conhecem as várias famílias da região. São eles que sabem se é uma família de bêbados, de gatunos, de feiticeiros, que sofre de doenças mentais ou se é boa família e qual a sua origem. É em função desse conhecimento que eles assumem ou não o compromisso de casar o sobrinho. Dai o dito popular, nda okwela, pula, pula (literalmente, se queres casar, pergunte ou procure aconselhamento).

Assumindo o compromisso de casar o sobrinho, porque entende ter este feito uma boa escolha, o tio comunica o facto aos demais familiares e procura manter contacto com a família da futura noiva.

No p’primeiro contacto com a família da noiva, deve o tio do rapaz levar um litro de primeira de kaporroto1, para ofertar ao pai da moça, sendo obrigatória e indispensável a presença de pelo menos um dos tios maternos da rapariga, porque cabe a eles autorizar ou não o casamento da sobrinha. Se nenhum deles se fizer presente, a reunião terá de se realizar noutra ocasião.

Pelo lado dos tios maternos do pretendente, para este primeiro encontro, escolhe-se aquele que tem o dom da palavra, o ongandje em Umbundu, e este falará em nome de toda a sua família.

Quando a comitiva visitante chega em casa dos pais da moça, os anfitriões recebem-na com as seguintes palavras em Umbundu:
- Akombe veia (sejam bem vindos ou as visitas chegaram).

Responde o tio do rapaz:
- Haka, tchakale ukombe nda hakwenda limo (seríamos bem vindos, se não fosse a preocupação que nos trás)

Antes de perguntar qual é o problema ou a preocupação, o dono de casa convida os visitantes a entrar e oferece-lhes assentos, dizendo:
- Komangohoko?

Sentam-se as visitas. Com uma pequena vénia e batendo ligeiras palmas, responde o tio do rapaz:
- kuku (espécie de agradecimento) – e acrescenta – Tchisanda mango.

Já todos acomodados, segue-se a fase dos depoimentos (ulando), que é aberta com uma pergunta do dono de casa:
- Ulando owo? (Qual é a situação? O que é que se passa?)

A esta pergunta pode o tio do rapaz expor já o assunto que os trouxe, mas a cortesia local assim não o aconselha. Então, o ongandje, normalmente, começa por falar de todos os problemas da sua família, desde os mais banais (por exemplo, o pintainho que morreu, o pé de milho que partiu) aos mais graves e sérios (doenças, mortes, etc.). De seguida elogia a sua família, ressaltando, sobretudo, as qualidades do seu sobrinho e, finalmente, expõe as pretensões do seu sobrinho. Levanta-se então uma discussão.

Frequentemente, esta discussão termina com a permissão do tio materno da moça, que autoriza a celebração do casamento da sua sobrinha, pela marcação da data do casamento e pela determinação dos bens (ilembo) que a família do pretendente deve entregar família da sua futura esposa. A partir deste momento começa o noivado (okulava). Chagado o dia marcado para o casamento, a família do moço, com todas as exigências feitas pela família da moça, dirige-se para a casa desta. Postos ali, a cerimónia começa com a apresentação do ilembo, que é feita por um dos membros da família da pretendida, designado em Umbumdu okunda, que confirma tudo o que tinham pedido. Feita esta confirmação, batem-se palmas de contentamento, sendo costume levantarem-se pequenas quezílias, sem fundamento nenhum, mais no sentido de os familiares da noiva mostrarem que não é de mão beijada que entregam um parente seu. Por isso, rapidamente são ultrapassadas.

Quando a moça tem filho de um outro homem, entregam-se poucos bens, se comparados s fortunas que recebem as famílias de raparigas sem filhos e, ainda por cima, virgens. Por outro lado, também, a família de uma mãe solteira não se atreve a fazer muitas exigências, porque tem consciência do quanto é difícil fazer casar uma filha nessas condições.

A este momento de apresentação e entrega do ilembo denomina-se okulomba em Umbundu e a presença doa noivos é dispensável. Mas, obrigatória é a presença dos noivos no momento seguinte, aquele em que eles manifestam a mútua aceitação, o momento do sim. Este momento é feito da seguinte maneira: entrega-se um garrafão com walende noiva e esta serve uma pequena quantidade num copo, dando de seguida um gole do mesmo. Segurando ainda o copo, ela dá também um trago ao noivo. É o sim. Há este gesto, ao qual se pode seguir em beijo (esipulo em Umbundu), batem-se muitas palmas, soltam-se gritos de alegria e as mulheres presentes cobrem o rosto com fuba branca de milho. Além disso, fazem-se brindes aos potenciais rivais dos noivos, os primos de cada um, dizendo que agora já nada podem fazer. Os primos da moça rivais do moço denominam-se vikwelume e as primas do moço cepa akãe.

Tal como nos casamentos “europeizados”, os noivos trocam alianças, neste casamento tradicional existe um acto do mesmo género, que é a entrega que o noivo faz noiva de uma missanga ou pulseira, que simboliza a união e avisa os mais atrevidos que se trata de uma mulher comprometida. Esta pulseira ou missanga chama-se em Umbundu omota.

Segue-se o banquete.

Cada um dos membros da família do noivo que for servido mesa, deve deixar dinheiro debaixo do prato e do copo. Se assim não procederem, ao se retirarem para as suas casas, encontram um lençol estendido porta e, ao passar sobre ele, terão de deixar cair algum dinheiro. Esse dinheiro serve de pagamento para quem preparou o almoço.

Se se tiver decidido que a moça vá já para a casa do seu marido, o que é raro acontecer, saem todos da casa onde se passou a cerimónia do okulomba e se dirigem para a casa daquele. Se assim não for, marca-se então uma data para o efeito.

Se de imediato ou em momento posterior, a entrada da mulher em casa do seu marido é um momento especial, com uma cerimonia própria, denominada em Umbundu ekwatisa epata. Esta cerimónia reparte-se em três momentos distintos: primeiro mostram-se os bens que a mulher trás consigo, porque o regime económico do casamento é o da separação de bens; apresentam-se as pessoas que estão presentes, constituindo esses a verdadeira família do casal; por ultimo, uma das tias maternas da rapariga ensina-a a fazer o pirão e a distribuir a carne, já que é com base nisso que se determina também o seu grau de educação.

Quando a família da noiva afirma ser ela virgem, para confirmar este facto, as tias do noivo colocam um lençol branco na cama onde os noivo vão passar a primeira noite juntos. Comprovando-se, pelas manchas de sangue da perda da virgindade, não há problema nenhum. Se não se comprovar, a família da noiva paga uma “multa” família do noivo e a moça pode ser desprezada e até mesmo rejeitada.

Este é o procedimento normal, que termina com a saída da rapariga da casa dos seus familiares para a casa do seu esposo e ai passar a viver.

Porém, excepcionalmente, se pode dar o contrário, sendo o homem a deixar a casa dos seus e a fixar-se em casa dos familiares de sua mulher. Isto acontece, normalmente, com comerciantes, que vêm de terras distantes. Eles são chamados de tchinguedelei (vagabundo, viajante) homem sem direitos, sem palavra nas reuniões e sem poder de decisão. Tudo isto porque ninguém conhece as suas referências familiares.

Osvaldo Luacuti Estêvão




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