REFLEXÃO POR OCASIÃO DA JORNADA DE AFRICA

Philippe Hugon, um economista francês, no seu livro intitulado “L’Economie de l’Afrique”, faz uma síntese magistral sobre alguns dados macroscópicos da letargia a que está sujeita o continente africano, e algumas chagas que ainda fazem resistência a desaparecer. A África – sentencia o economista francês – ainda se confronta com numerosos problemas não resolvidos desde a época das independências: uma excessiva dependência nas exportações da matéria-prima, a quase ausência de um tecido industrial, débeis taxas de investimento, a fragilidade do mercado interno (…). Em seguida Hugon propõe à nossa atenção alguns dados e cifras macroeconómicos de alguns países africanos, que deixo à curiosidade (e interesse) do leitor.

Se ouve não poucas vezes, com uma boa dose de cinismo a sabor ocidental, que se o continente africano (sob o ponto de vista económico) desaparecesse do mapa-mundo ninguém se aperceberia. Uma tal afirmação – cínica na sua eficácia comunicativa e ao mesmo tempo falsa de verdade, pelo menos na análise de dados sobre a realidade económica mundial – cancela um dado historicamente comprovado: a inserção do continente africano no “sistema-mundo” no âmbito da divisão internacional do trabalho que teve inicio no século XV com o comércio triangular.

O “sistema-mundo” é uma estrutura polarizada entre o Centro e a Periferia por meio do mecanismo da subalternização das economias da Ásia, da América do sul e da Africa, por parte da economia hegemónica. De facto, na sua essência, o comércio triangular (entre a Europa, a Africa e as Américas no século XVI) é o instrumento principal, o primeiro embrião da “inclusão-exclusão” das economias não ocidentais, e portanto também de Africa, nas modernas economias ocidentais.

Mas o nosso quesito de fundo não se limita no facto se a Africa está ou não inserida dentro da economia mundial, mas consiste no saber como está inserida neste âmbito e quais são os efeitos que incidem nos processos locais de produção e reprodução da riqueza? Sobre os mecanismos utilizados na luta contra a pobreza (e o empobrecimento) e as dinâmicas de intercâmbio com o resto do mundo? Porque lugubremente se constata ainda uma fase de empobrecimento estrutural e crónico no continente africano, que a coloca no chamado “quarto mundo” da estagnação ou da regressão económica.

Esta tarefa se torna ainda mais árdua, pela impossibilidade de recorrer, como nos séculos passados, à explicação antropológica ou biológica, que se baseavam na tese da “natural e congénita inferioridade dos negros”, e que de um modo geral insinuava a ideia, que resiste a se cancelar, segundo a qual existe qualquer coisa na natureza dos africanos que os impede de atingir certos resultados. Essa ideia – que a ciência demonstrou ser falsa por não existirem raças intrinsecamente hierarquizadas – continua a ter uma resistência sorrateira. De facto, uma corrente de pensamento que pulula dentro de Africa não afirma coisa diferente quando convida os africanos a se despirem de certos condicionamentos antropológicos e psicológicos que constituem um travão para o desenvolvimento.

É necessário afirmar com força a absoluta inconsistência da pista biológica, porque a história económica da Africa – pelo menos até ao inicio da abominável época da escravatura e do tráfico dos negros – comparada com as outras áreas do mundo, atingia os mesmos níveis. Talvez será necessário rebuscar nos factos da história algumas causas da fragilização estrutural do continente, de acordo com o historiador Giampaolo C. Novati.

Como é óbvio, sem fixar o olhar no passado histórico, não existem rígidos determinismos que podem influenciar de maneira automática sobre os factos actuais, desresponsabilizando os africanos de hoje nas suas escolhas económicas. Mas também não podemos não ter em conta que as escórias da história deixaram marcadas as suas impressões sobre os territórios, sobre os homens, sobre os quadros sociais, culturais e sobre a evolução da sua relação com o mundo e com os outros.

O meu amigo Jean Léonard Touadí, de origem do Congo Brazzaville, recentemente eleito como deputado no Parlamento Italiano, no seu livro “Africa – a Panela que ferve –dizia que a solidão geopolítica de Africa e a sua marginalização relativamente ao fenómeno da globalização económica representam uma realidade que leva muitos observadores a decretarem a agonia do continente. Africanistas mais ou menos actualizados, peritos em cooperação, voluntários que quase não confiam nas capacidades dos africanos, esperam à margem do rio ver passar o cortejo fúnebre que transporta o cadáver de África. E não obstante a instabilidade política, os falhanços dos modelos económicos, as guerras e as carestias, o cadáver ainda não passou, e os povos africanos deixaram de olhar para os céus onde vinham as ajudas e passaram a olhar para a própria terra, valorizando-a.

É necessário recomeçar para finalmente compreender que a Africa nunca morreu, mas é, como dizia o filósofo camaronês Jean-Marc Ela, “Uma Panela que ferve”. É um auténtico afro-optimismo!

E eu continuo a acreditar na Africa! Porque não?!

Romae, 25 de Maio 2008.

Por: Domingos DAS NEVES *

* membro do Circulo dos Intelectuais da Africa lusófona em Roma e doutorando em direito.

e-mail: ddasneves@hotmail.com