Carta do Brasil- Saudades do Natal no Huambo
por Lino Cardoso
Numa das reuniões diárias de fim do dia, durante as quais se analisavam os problemas resolvidos, os insolúveis e os do dia seguinte, aconteceu a apresentação do novo integrante a aumentar para seis o número de membros da equipe, em paulatino e sucessivo crescimento – o jordaniano Khaled, policial militar e ex-integrante da guarda pessoal do rei Houssein. Era o dia 22 de dezembro de 1994.
Dos seis membros da nova constituição do team site do Huambo, três eram cristãos, dois muçulmanos e um hindu. Assim, foi com um misto de incredulidade e curiosidade que escutamos a proposta do Coronel Khumar (hindu), de realizarmos uma festa natalina para as ONGs instaladas na região.
Todas as dificuldades logísticas naquela altura e a situação reinante na cidade, não foram suficientes para demovê-lo do intento. Cada membro contribuiu com 100 US$, para comprar cervejas e gasosas (como não bebo cerveja, saíram caras as minhas gasosas), e também para comprar os cabritos – sacrificados no ritual muçulmano, limpos e assados. O jordaniano se encarregou da tarefa, feliz. E confeccionou dois tipos de arroz, um deles colorido com açafrão.
A Dona Adelaide (se o desejarem podem olhar as fotos na Comunidade Virtual do Huambo, álbum “Vistas do Huambo (Nova Lisboa)”, página 9), “viúva de marido vivo” (ele, comerciante, fora a Luanda a negócios, quando estouraram os violentos combates de 1992; resultado: não conseguiu retornar e ela ficou imobilizada no Huambo) era nossa excelente cozinheira e fez o possível para tudo ficar a contento.
Trabalhando conosco, Dona Adelaide seria recompensada: em um futuro próximo se reuniria a seu esposo na superpovoada Luanda, graças carona em um dos aviões de transportes a serviço da UNAVEM. Ela e os seus filhos. Havia também a Dona Teresa, viúva de fato, desde os famigerados “55 dias”, quando um obus explodiu na rua e os fragmentos acertaram seu marido, na volta deste para casa. Colaborava com a limpeza geral e dos quartos, sendo fundamental na arrumação do salão – onde funcionara um bar noutros tempos – no primeiro piso do hotel. Deslocamos um dos três pequenos geradores portáteis de energia elétrica, de que dispúnhamos, e fez-se a luz. Alguns convivas trouxeram aparelhos de som e CDs, e surgiu a música.
Tudo s pressas!
Sábado, 24 de Dezembro de 1994, com as mesas e cadeiras do antigo bar recebemos os convidados em uma surpreendente miscelânea de nacionalidades e ONGs distintas. Havia até uma portuguesa – ÓIKOS – onde um de seus membros pilheriava com um francês, na saudável discussão do melhor vinho. Em resposta, brincadeira de Portugal ser o maior importador de vinhos franceses, respondia: – “É verdade! Portugal compra todo o vinho francês apenas para confeccionar vinagre!”. Para deleite dos ouvintes próximos. Um detalhe me chamou a atenção: fosse qual fosse o país de origem, todos procuravam falar o idioma português. Isso, por vezes, ocasionava situações hilárias. Vejamos:
O coronel Khumar era, na Índia, segundo suas palavras, professor de “Alta Tecnologia” na academia militar. (Interessante: apesar do seu cargo, não possuía automóvel e só foi aprender a dirigir em Angola. No Brasil o chamaríamos de “barbeiro”). Sempre o tive como homem inteligente, perspicaz e de hábitos simples. Ele, como os demais membros, possuía um dicionário “Inglês-Português”, porém o transformou em seu livro de cabeceira. Sempre a consultá-lo. Sua pronúncia era nítida e surpreendia. Passei em frente a sua mesa, onde predominava o público feminino, incluindo algumas jovens angolanas, quando ouvi sua imorredoura expressão:
“… o marido e a MARIDA (?!)…”
para gáudio imperdoável dos seus (suas) parceiros (as), que sequer relevaram o clima natalino. Nos seus incessantes estudos, tinha compreendido ser a flexão do gênero feminino obtida com a troca do “o” final pelo “a”. Sob risos, apreendeu mais uma exceção.
Percebi que, além da confraternização, o objetivo maior foi a reunião de tantos organismos num só local. Demoraria muito, se fôssemos procurá-los um a um. Em poucas horas, já conhecíamos a maioria dos presentes: o Patrick, irlandês, da “IMC”; a Mary, americana, da “Save the childrens”; o Léo, inglês, de coração imenso, maior do que o seu corpanzil, da “unicef”; o Beat Schweizer, suíço, da “Cruz Vermelha”; o Cardoso, português, da “Óikos”; o Michel, francês, do “Médicos sem Fronteiras”; o José Luiz, dominicano, da UCAH (espécie de coordenadora das demais), e muitos outros, de tantos lugares e ONGS variadas dos quais não mais recordo. Porém, não posso deixar de citar uma em particular:
Foi quando um italiano sentiu-se mal e o atendi na pequena enfermaria improvisada ao lado de meu quarto, no segundo piso. Mais emocionado do que doente, chegou s lágrimas rememorando os familiares distantes. Já estava medicado, quando entrou no quarto a Dra Magel, acompanhada de uma enfermeira, ambas do “Médicos sem Fronteiras”. De nacionalidade uruguaia, era um dos raros membros não-franceses das equipes destacadas em território angolano, da referida ONG. Nascido na fronteira do Brasil com o Uruguai, pude iniciar um diálogo em espanhol, limitado, é claro, pelos longos anos fora da região fronteiriça. Escutei, interessado, sua história: nascida em Montevideo, filha única entre dois irmãos, desde pequena já falava em trabalhar na África. Depois de formada médica, surgiria a oportunidade e inscreveu-se para os “Médicos sem Fronteiras”. Agradável surpresa: foi aceita. Estava há dois anos em Angola. Tinha ultrapassado períodos difíceis, como o recrudescimento dos combates, e alguns surtos de malária. Nada disso abateu sua firmeza. Mesmo vencendo seu contrato, almejava permanecer no país, se não na mesma, em outra ONG. Em seu Uruguai já fora foco de reportagens escrita e televisada, quando lá retornou em descanso e para rever os seus familiares.Falava um português fluente, além do francês (obrigatoriamente, no seu caso), o inglês e, é claro, o espanhol. Quando disse sua data de nascimento – 19 Abr 1966 – falei quase de imediato:
- Nasceste numa terça-feira!
Olhou-me surpresa e questionou-me:
- Como sabes?!
Não foi difícil explicar-lhe a minha facilidade para guardar datas e associar com fatos marcantes próximos. Mas, mesmo assim, ainda permaneceu incrédula
O importante é que entre nós surgiu uma genuína empatia, uma fraternal amizade. Ganhei uma irmã 17 anos mais jovem. Na realidade, Ela e seus companheiros moravam no Huambo e exerciam as atividades profissionais na Caála, onde aproveitaram instalações existentes e aumentaram com tendas de lonas. Montaram um verdadeiro hospital de campanha – atendiam centenas de pessoas diariamente, de cirurgias urgentes como nas vítimas das minas aos casos mais simples. Lastimavelmente, enfermidade mais recorrente, a cura não estava próxima naquela região – a subnutrição! No início de março/95 (está na foto, também página 9), a Drª Magel se despediu da cidade onde dedicou dois anos de incessantes esforços para o bem dos menos afortunados. Nunca mais soube notícias Dela. Peço a Deus que bem esteja, e o seu desejo de permanecer em Angola, atendido.
Assim, a inesperada comemoração natalina incitada por um hindu foi gratificante, seja pelo congraçamento de tão díspares nacionalidades, seja pelo surgimento de saudáveis amizades.
Creio mesmo, todos os participantes tenham usufruído desse rememorável hiato festivo, naqueles dias tão difíceis.
Obrigassem-me a escolher poucas palavras para expressar aquele pequeno foco de luz nas longas trevas do Huambo, usaria as sempre repetidas e nunca gastas, usadas por Ele:
“… paz na terra aos homens de boa vontade”
No maravilhoso dia primaveril de 16 de dezembro de 1994, chegava eu na Nova Lisboa (Huambo), jóia planaltina vilipendiada durante vinte anos por ignóbeis e incultos agressores que, na vã tentativa de a dominar, perpetraram o horrendo crime de lesa-Humanidade.
Hoje, mesmo coberta com as doloridas e feias cicatrizes, acolhe no seu generoso colo tanto os amorosos filhos, natos e adotivos, quanto os infelizes agressores, no sublime exemplo do materno perdão.
Fraterno abraço.
Lino Cardoso



