Carta do Brasil- Saudades do Bailundo
IrÃamos ao Bailundo para a primeira reunião com o comando polÃtico da UNITA e tratar, entre outros assuntos, da reativação do team site local. O anterior, dois anos antes, com o recrudescimento dos combates, havia sido desativado, saqueado e destruÃdo. Perda total , em termos materiais. Precisávamos saber o destino das muitas viaturas que ali quedaram.
Precisávamos também, tentar liberar uma freira brasileira (natural do estado do EspÃrito Santo), que há dez meses não conseguia permissão para retornar ao Huambo. Sua superiora nos acompanharia no nobre intento.
Cedo nos preparamos para a esperada viagem de cerca de cem quilômetros.
Antes das seis horas da manhã, o dia ainda não tinha clareado, e a Irmã Antônia, Madre Superiora da Congregação Religiosa Feminina do Huambo, já nos aguardava na calçada em frente ao team site da UNAVEM II, situado na avenida Craveiro Lopes, defronte ao último galpão da ferrovia. O verdadeiro nome dessa avenida fomos descobri-lo há pouco tempo, graças ao nobre amigo Ribeiro Júnior.
Tratava-se de uma simpática italiana de Nápolis. Tinha chegado à Nova Lisboa (Huambo) em 1967, e lá permanecido. PossuÃa pequena estatura e falava um português elogiável, num tom suave.
Era terça-feira, 27 de dezembro de 1994, um dia após o agradável almoço comemorativo ao aniversário de 69 anos do Padre Benjamin(?).
No trajeto apanhamos um Major da UNITA. Seria quem nos mostraria o caminho secundário de terra, para evitarmos as minas e armadilhas do principal, pavimentado. E também para passarmos os pontos de controle das tropas rebeldes.
Agora éramos quatro na Nissan Patroll: o Coronel Khumar (indiano), chefe de nossa equipe no Huambo, o Major da UNITA, Madre Antônia, e eu.
O Coronel dirigia o veÃculo com a nÃtida habilidade de quem há poucos meses apreendera a arte da direção (na própria UNAVEM II, em Luanda!).
Sorte nossa, ele não possuir o Ãmpeto da pressa, e nem o acidentado terreno, permitÃ-la.
Em silêncio admirávamos a bela geografia local e as sólidas estruturas das fazendas desertas (por onde andariam os proprietários!?).
Foi quando então, ouvi um som familiar, quase esquecido no subsolo da memória, há muitos e muitos anos sem escutá-lo, desde a minha juventude, lá na região agropastoril onde nasci, no sul brasileiro.
- Na minha terra chamávamos essa ave de Perdiz! Disse.
Quase a uma só voz, o militar da unita e a religiosa exclamaram:
- Aqui também!!
Voltei ao silêncio, agora emocionado.
Chegando ao Bailundo, logo depois de passado a ponte, chamou-nos à atenção, no lado direito, duas altas palmeiras, uma delas inclinando. Com o passar dos anos talvez, a força da gravidade superasse a das raÃzes.
Sem movimento de trânsito e com pouco de pessoas (esse era um detalhe constante), era-me triste o centro de poder rebelde. Deixamos a Irmã Antônia, e sua pequena bagagem, próxima ao prédio da missão religiosa local e fomos à reunião.
Defronte a uma rótula no centro da cidade, à esquerda havia uma praça e no prédio cor verde feio (sempre essa cor a nos acompanhar no lado da UNITA), na esquina da rua de ingresso ao Bailundo, era a sede do partido.
Nos reunimos com os representantes da UNITA numa ampla peça de formato retangular, onde havia várias cadeiras nos lados maiores. Num dos lados menores do retângulo, estava uma solitária cadeira, na verdade, uma poltrona de gosto duvidoso, com os encostos para a cabeça e para os braços cobertos com gravuras nativas, ornamentada artesanalmente. De altura e largura acima da média. Era destinada ao “galo mais velho”. Como plano de fundo, atrás da poltrona (quase um trono!), estava pintado na parede verde, o sÃmbolo da unita, com um galo negro despontando. No outro extremo, mais estreito do retângulo, estavam a entrada, por um lado, e acesso a várias peças, no outro.
Numa das fileiras de cadeiras, estas de dimensões normais, estávamos, os dois solitários representantes da unavem. No outro lado da sala, os da unita, em ampla maioria.
Destacavam-se o Coronel Zavarra, representante junto ao organismo internacional, o “Embaixador” da unita na Europa, por aqueles dias retornado à Angola, Isaias Samankuva. Este era um negro de tez menos enegrecida, com barbicha e bigode bem aparados, um pouco mais alto do que eu, e já tendendo ao excesso de peso. Falava pausadamente e era poliglota.Tivera, creio, educação na Inglaterra. Segundo rumores, trataria das finanças da organização e sua mulher, estrangeira, de cor branca.
Cortês, demonstrava fino trato. Antes de iniciar a reunião, nos brindou com variados assuntos numa exibição de conhecimentos abrangentes.
Faltava o número dois, na hierarquia polÃtica da unita. Chegaria atrasado, a bordo do único automóvel, até aquele momento, vislumbrado nas ruas desertas do Bailundo. Pareceu-me ser um “Passat”, de cor branca, bem amassado, e já queimando óleo.
Jovem e dinâmico, não cria tivesse passado muito dos trinta anos. Com vários documentos sob o braço, movia-se com rapidez e decisão. Era quem tomava as iniciativas e a palavra dominante do grupo ali reunido pela UNITA. Seu nome: Paulo Gatto. Se for ainda vivo, acredito que seja uma liderança a ser ouvida em Angola.
Primeiro assunto: reclamação. Era de lei. Muitas reclamações. Cansativas.
O problema da freira ficaria para o fim da fila.
A longa reunião com os chefes do grupo polÃtico/militar arrastava-se lentamente. Eu a escutava em duplicada. Primeiro os interlocutores, depois o intérprete, um capitão da UNITA, altura de jogador de basquetebol e admirador da seleção e do campeonato norte-americano. Mostrou-me a revista, em edição no idioma inglês, do campeonato da NBA.
Apesar da aparente universalidade do jovem militar, em descontraÃdo bate-papo, deixou transparecer uma confiança (Fé?!) exagerada, ilógica até, no chefe maior, atribuindo ao mesmo poderes irreais, mÃsticos! Lembro hoje, de que embevecido, comentava:
“… que ao lÃder bastava somente um olhar e já poderia identificar quem o estava traindo (?!).”
-Como se defender de uma suspeita/certeza desse tipo?
“… que teria o corpo fechado tanto para as pequenas como para as grandes balas”; “… que suas casas foram bombardeadas na sua ausência, e isso seria uma prova do seu poder de premonição (?!).”.
Era constrangedor ouvir isso de um jovem adulto de 27 anos, poliglota e acompanhante do afamado campeonato norte-americano de basquetebol. O que pensariam os soldados simples, aqueles que mal falavam o português? Talvez que o “galo negro” levitasse sem bater as asas, ou fosse uma nova divindade no rol das crendices local, com poderes “comprovadamente” superiores.
Intimamente consternado, a tudo escutava.
Bateram as 15H00.
A fome chegou, sem pedir permissão.
Foi quando descobri que o Coronel não trouxera as nossas rações militares, não por esquecimento, mas por ser o seu dia de jejum semanal!
Mesmo não sendo hindú, fui compelido a acompanhar a sua abstinência alimentar. Ao recordar o farto almoço no aniversário do padre Benjamin no dia anterior, não consegui deixar de associar com um dito popular da minha terra: “dia de muito, véspera de pouco”. Encaixou à perfeição.
Apelei para o cantil d’água.
Pedi licença aos membros da UNITA e fui dar uma caminhada na desolada cidade, não sem antes ter sido avisado para evitar fotografias e a rua tal (a mais limpa da cidade e com militares armados nas extremidades), onde morava o chefe máximo do movimento. Aviso desnecessário. Achara Bailundo muito triste e seus habitantes, arredios. Nas várias vezes que lá retornei, pouco mudaria a minha primeira impressão.
Logo me surpreendi ao encontrar um branco na rua.
Era o Padre Moreira. Oriundo de Portugal vivia no Bailundo desde 1963. Passado dos sessenta apresentava-se hÃgido, bem disposto e de constituição forte, o seu linguajar era carregado, porém compreensÃvel. Juntos caminhamos, e ouvi suas muitas histórias, nenhuma alegre.
Falou sobre o recrudescimento dos combates, dois anos antes e, sobre as atitudes incrivelmente inconseqüentes dos soldados. Os membros da UNAVEM I, na oportunidade, tiveram de deixar os veÃculos, que eram cerca de dez, antes de serem resgatados por avião. Deixaram todos estacionados, juntos, alinhados e trancados, defronte à Praça do Bailundo.
Bastou o avião decolar e os delinqüentes fardados não se deram sequer ao trabalho de arrombar as portas das viaturas. Quebraram os vidros com as coronhas dos fuzis e, saÃram a desfilar pela cidade. Bastaram poucos minutos, para os estragos maiores aparecerem. Sem a habilidade imaginada, logo estavam abusando da velocidade, cruzando as ruas como se fora em um autódromo, e os acidentes surgiram ao natural.
Menos de uma semana decorrida, já não havia um só veÃculo inteiro. Alguns, inservÃveis. Um desses veÃculos o encontrarÃamos em viagem posterior ao Bailundo, muito mal pintado, amassado, mas rodando.
Mostrou-nos a casa bombardeada pelo MIG, onde morava o Dr Savimbi, estava ausente, ficaram os estragos. Fomos até ao aeroporto (quase um campo de pouso) e novas histórias, mais recentes também dramáticas.
Conclusa a longa reunião, fomos avisados da liberação da Irmã. Salientaram que ela “apenas” não partira antes, por falta de transporte (?!).
Finalmente chegou a hora de retornar com a Irmã brasileira: uma simpática freira, meio gorduchinha, de cor negra. Feliz pela liberação e pelo reencontro com a sua superiora.
O major ficou na casa de familiares no Bailundo. Nos acompanhavam então, quatro soldados armados, os quais ficariam pelo caminho. Comprimidos no bagageiro, atrás do segundo banco, lançaram no ambiente a nauseante ausência (diria longa ausência), de hábitos higiênicos regulares. Apesar do ar-condicionado funcionar a pleno, tornou-se perceptÃvel o desconforto olfativo.
Era noite fechada quando chegamos na sede da Congregação religiosa. A Irmã Antônia solicitou mais um minuto de paciência e entrou no prédio; retornou com uma bandeja, onde estava, segundo as suas palavras:
- a verdadeira pizza italiana!
O meu jejum terminava!
E o longo dia também.
Abraço fraterno
Lino Cardoso.
A boa surpresa:
Da Irmã Antônia, Superiora da Congregação Religiosa Feminina do Huambo, encontrei a sua foto na Internet, no endereço: www.scourmont.be/lourdes99/images/photos1.htm
Como não me sinto, moralmente, autorizado a publicar sua foto no álbum, poderão, os mais curiosos, acessar e conhecê-la (ou reconhecê-la).



