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ANGOLA… OLHAR COM ESPERANÇA!

Reflexão por ocasião da reparação das segundas Eleições legislativas

Por: Domingos DAS NEVES*

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Angola está a se preparar para as próximas eleições legislativas, previstas para Setembro do corrente ano. Ao que tudo indica, este grande evento – importante para a afirmação e a estabilidade da vida democrática angolana – está a ser preparado com grande animosidade, seja por parte dos políticos assim como dos cidadãos sui generis. Dado o momento, é normal nesses casos que exista um clima de tensão nas discussões políticas entre as partes interessadas, que a bem da verdade deveria interessar e envolver todas as forças da civitas, aqui entendida como expressões institucionais (públicas, intermédias e privadas) de que é composta a societas.

No meu artigo ‘Eu creio na África – por ocasião da hodierna jornada d’Africa’, propunha a não fixarmos o olhar continuamente nas escórias (negatividades) do passado histórico, mas ao mesmo tempo adverti a necessidade de sermos conscientes do peso de responsabilidade que acompanha o destino da nossa Nação, enquanto Casa comum de todos os filhos de Angola. Neste sentido, orientar a nossa acção quotidiana iluminados na Esperança se torna fundamental para a edificação de uma sociedade democrática, na qual pessoas e instituições trabalham conjuntamente para o bem-comum com espírito de confiança e optimismo, sem deixar-se vencer por sentimentos de desconfiança e pessimismo, que são desvalores que impedem solidificar as bases de uma sociedade como a nossa, que justamente pretende se afirmar no concerto das nações, tendo presente as suas enormes potencialidades, humanas e materiais.

Grande ênfase nessa altura, para Africa e para Angola em particular, coincide providencialmente a reflexão do Sumo Pontífice Bento XVI, no parágrafo 35 da sua ultima Carta Encíclica Spe Salvi – sobre a Esperança – quando afirma que “toda a acção séria e recta do homem é esperança em acto. É-o antes de tudo no sentido de que assim procuramos concretizar as nossas esperanças menores ou maiores: resolver este ou aquele assunto que é importante, para prosseguir na caminhada da vida; com o nosso empenho contribuir a fim de que o mundo se torne um pouco mais luminoso e humano, e assim se abram também as portas para o futuro”. No mesmo parágrafo o Pontífice nos adverte sobre a valorização do fundamento da virtude da Esperança, para que esta não seja banalizada: “Mas o esforço quotidiano pela continuação da nossa vida e pelo futuro da comunidade cansa-nos ou transforma-se em fanatismo, se não nos iluminar a luz daquela grande esperança que não pode ser destruída nem mesmo pelos pequenos fracassos nem pela falência em vicissitudes de alcance histórico”.

Olhar, portanto, o futuro de Angola com esperança e optimismo é um imperativo que deveria nortear o esforço e a vida concreta de cada angolano, independentemente das suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, da sua condição económica e social (…). De facto, a esperança deve nos impulsionar a colocar em segundo plano a corrida frenética na possessão de bens materiais, pois como diz bem o Pontífice no parágrafo 21 do mesmo documento, ao criticar o materialismo: “o homem não é só o produto de condições económicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis”. Se deve procurar interpretar o verdadeiro valor dos bens duráveis, que precede a grandes renúncias e nos propõe partilhar a vida com os que mais sofrem e são marginalizados, empenhando-nos seriamente na prática constante da justiça em função do bem-comum, mas com espírito de verdade.

Lealdade em manter uma vida coerente baseada em nobres princípios, e liberdade de acção motivada com espírito de responsabilidade e consciência, no meu ponto de vista, deveriam ser alguns princípios orientadores da vida dos agentes políticos e económicos angolanos (antigos e novos), pois deste modo – conduzindo uma vida exemplar e regrada - se poderá contribuir positivamente na eliminação da ‘cultura da indisciplina’ e ‘da arte de vencer sem ter razão’, que por sua vez geram imoralidades e outros males sociais que afectam a vida concreta de muitos concidadãos. Para o efeito diz claramente Bento XVI na Spe Salvi: “se não podemos esperar mais do que realmente é alcançável e de quanto nos seja possível oferecerem as autoridades políticas e económicas, a nossa vida arrisca-se a ficar bem depressa sem esperança”.

A acção política – neste caso também para os agentes políticos angolanos – deve ser concebida antes de mais como uma vocação (empenho) que se deve colocar ao serviço dos outros e do bem-comum, visando a edificação de uma sociedade onde a pessoa humana (o cidadão) esteja no centro das atenções. Mas este empenho (não fácil) será efectivo, concreto e produtivo se for conjugado com uma discreta cultura geral, uma adequada formação profissional, espiritual e moral, porque doutro modo “se corre o risco em reduzir a política num mero instrumento para interesses privados, individuais e egoístas”, como sublinha bem o Cardeal Vincenzo Fagilo, (ad perpetuam memoriam), ao prefaciar a obra do Prof. Alfredo Luciani, sobre a Caridade Política. Neste momento os reflectores do mundo estão concentrados em Angola “firmes na esperança”, com a esperança optimista de que se possa colher a oportunidade para qualificar o País como um exemplo democrático sobretudo em Africa, que alguns dizem ser a terra dos leões, leões da Esperança, “hic sunt leones”, na expressão dos antigos romanos!

Romae, Julho 2008.

*Membro do Circulo dos Intelectuais
da Africa lusófona em Roma
e doutorando em direito.
e-mail: ddasneves@hotmail.com

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