Constituí­do que estava o suporte legal para a criação de associações e atendendo à situação de guerra e de carência que se vivia por quase todo o território nacional, deu-se em Angola o surgimento das “ANAs” (Associação dos Naturais e Amigos), cujo objectivo principal foi o de socorrer as pessoas que permaneceram nas áreas afectadas pelo conflito armado ou aquelas que se deslocaram e se refugiaram em proví­ncias mais seguras.

Índice dos conteúdos
Iní­cio da década de noventa – Antecedentes Sócio-Jurí­dicos
1993 a Setembro de 1994 – O nascimento da Associação
Outubro a Dezembro de 1994 – A Operação com o Hércules C130
O ano de 1995 – O Contratempo, o Reconhecimento e o Continuar
O ano de 1996 – Mudança de Ares
O ano de 1997
1998 a 2002 – A Inércia
2003 a 2005 – O Renascimento

Iní­cio da década de noventa – Antecedentes Sócio-Jurí­dicos

A transfiguração do cenário politico, económico e social que servia de fundo à realidade angolana vivida nos primeiros 16 anos após a independência, verificou-se com a aprovação da Lei Constitucional de 6 de Maio de 1991 (Lei nº12/91) e, logo a seguir, com a Lei Constitucional de 16 de Setembro de 1992 (Lei nº23/92). Com estas leis inaugurou-se em Angola um Estado democrático, multipartidário, de economia aberta e com maior participação e intervenção dos cidadãos na vida do paí­s.

Para reforço do Estado nascente, várias outras leis foram aprovadas e publicadas, destacando-se no domí­nio associativo, salvo erro, domí­nio até então desconhecido, a Lei nº14/91, de 11 de Maio, Lei das Associações.

Estava assim criado o suporte legal para a constituição de associações.
Em Setembro de 1992, foram realizadas as primeiras eleições em Angola. No ano seguinte, após o anúncio dos resultados, logo nos primeiros meses, o paí­s mergulhou numa guerra brutal, atroz, violenta, destruidora, assassina, traiçoeira, bandida, inimiga de todos.

No maldito dia 9 de Janeiro de 1993, sábado, no começo da tarde, ouviram-se as primeiras explosões de morteiros na cidade de Nova Lisboa. Foi o início do conflito armado pós-eleitoral no planalto central. Nesta parcela do território nacional, a primeira fase activa do conflito levou quase dois meses (os famosos 55 ou 57 dias).

Dada a violência extrema daquela guerra e a carência de viveres, milhares de pessoas viram-se obrigadas a abandonar as suas casas e terras, dirigindo-se para províncias vizinhas, principalmente a proví­ncia de Benguela, com o intuito de escaparem da morte e salvarem as suas vidas. Foram as afamadas caminhadas.

1993 a Setembro de 1994 – O nascimento da Associação

Constituí­do que estava o suporte legal para a criação de associações e atendendo à situação de guerra e de carência que se vivia por quase todo o território nacional, deu-se em Angola o surgimento das “ANAs” (Associação dos Naturais e Amigos), cujo objectivo principal foi o de socorrer as pessoas que permaneceram nas áreas afectadas pelo conflito armado ou aquelas que se deslocaram e se refugiaram em proví­ncias mais seguras.

Foi também nessa altura que alguns naturais e amigos da proví­ncia do Huambo, movidos pelo mesmo espí­rito humanista e humanitário, tiveram a feliz ideia de criar uma associação que congregasse os seus conterrâneos e amigos. Inicialmente, a ideia não teve a receptividade desejada, porque muita gente hesitou em contribuir para a iniciativa, uma vez que as sulanos (denominação atribuí­da às pessoas nascidas no Huambo, Benguela e Bié, fundamentalmente) eram vistas como inimigas.

Porém, dada a urgência da situação e a necessidade de uma intervenção pronta e imediata, qualquer conotação ou discriminação tornou-se reles. Assim, os pioneiros da ideia, entre outros, os senhores Graciano Mande, Gaspar Katchipia, Augusto Brandão, Carvalho, coordenados pelo senhor Guilherme Tuluca, com determinação e coragem, constituí­ram uma comissão instaladora. Depois de algumas reuniões e de terem alinhavado todas as ideias, no dia x de x, no Cinema Karl Marx, realizaram um mega encontro, reunindo mais de 300 pessoas, entre amigos e naturais, ressaltando-se as presenças notáveis do deputado Lúcio Lara e sua esposa e da senhora Gabriela Antunes. Desse encontro, colheram-se varias contribuições e o processo de criação da associação tornou-se então irreversí­vel.

Uma questão muito debatida, foi em relação à denominação da Associação, porque se entendeu que não deveria ser mais uma das “ANAs”. Então, a Comissão Instaladora comprometeu-se em criar um nome diferente. Alguns dias depois, o jovem Augusto Brandão apresentou como proposta a palavra ANAPHUA (Associação dos Naturais e Amigos da Proví­ncia do Huambo) que, por unanimidade, foi adoptada como denominação oficial da Associação.

Ainda no encontro do Karl Marx, concluiu-se também que já era necessário tratar da elaboração dos estatutos, tarefa que ficou a cargo da Dra. Teresa, jurista. Um mês mais tarde, apresentou uma proposta que, submetida a apreciação e votação da Assembleia-geral, no dia x de Outubro de 1994, foi aprovada. Nesse mesmo dia, procedeu-se também a eleição dos membros dos órgãos sociais da Associação. Nascia, assim, de facto a ANAPHUA!

É necessário sublinhar que o dinheiro para os gastos da proclamação da Associação foi dado pela Associação dos Naturais e Amigos de Benguela, a Associação Acácias Rubras e que também foi esta associação que serviu de inspiração para a criação da ANAPHUA.

Outubro a Dezembro de 1994 – A Operação com o Hércules C130

Atendendo ao grande número de deslocados do Huambo concentrados na proví­ncia de Benguela (no Campo de Deslocados de Damba Maior, sobretudo) a Associação, recém criada, viu-se forçada a transferir o seu Quartel-general de Luanda para as terras das Acácias Rubras. Nos meses de Outubro e Novembro, o presidente, o senhor Guilherme Tuluca, e o secretario, o senhor Justino Jerónimo, empenharam-se numa campanha sem precedentes, com o objectivo principal de mobilizar e reunir todo o tipo de apoio, para socorrer as populações carentes, quer deslocadas em Benguela, quer as que tinham permanecido no Huambo.

Para tão arrojado e monstruoso desafio, no que toca a sensibilização, a Associação contou com a solidariedade e prestimosa ajuda da ASSOCIAÇÃO ACÁCIAS RUBRAS (Associação dos Naturais de Benguela), da RÁDIO MORENA que, de modo incansável e insistente, lançou apelos nos seus programas, e também contou com a ajuda do Núcleo da Associação em Benguela.

Como as boas ideias são como uma semente que lançada à terra fértil, depois de regada, germina, cresce, floresce e dá bons frutos, o resultado da campanha de sensibilização não tardou.

A ONG alemã ORA INTERNACIONAL, na pessoa do seu representante em Angola, o irmão KUNTZ, colocou ao serviço da Associação os seus armazéns, para que ali fossem depositadas todas as doações, disponibilizou também os seus camiões e o seu pessoal de serviço, que viriam a transportar todos os bens recolhidos ao aeroporto.

Numa altura em que fretar um avião era extremamente caro e atendendo a falta de recursos que vivia a Associação, sobrepondo o facto de que a única forma de se chegar ao Huambo era por via aérea, a TAAG CHARTER teve um gesto que caiu como chuva em pleno deserto. A partir de Luanda dispensou uma aeronave do tipo Hércules C130, para fazer chegar a ajuda da Associação ao Huambo!

Alem desses gestos notáveis e de grande humanidade, os empresários locais e muita gente a titulo individual também fez chegar as suas doações às mãos da Associação.

Decorridos cerca de 60 dias de envolvimento intenso nessa campanha, nos primeiros dias do mês de Dezembro fez-se balanço e, surpreendentemente, tinha-se conseguido reunir mais de 14 toneladas de bens diversos. Para uma intervenção inicial e urgente, a direcção da Associação julgou ser o necessário. Assim, comunicou o facto a TAAG CHARTER, para que enviasse a aeronave, e no dia 8 de Dezembro, com a tão desejada mercadoria, o Hércules C130 partiu do aeroporto da Vila da Catumbela com destino ao Huambo. De salientar que este foi um dos primeiros aviões a poisar no aeroporto Albano Machado, depois de ter cessado a segunda fase do conflito pós-eleitoral, marcado pelo retorno das FAA ao Planalto Central.

Postos no Huambo, os filhos recém chegados à terra natal foram recebidos pela destruição, pela morte, pela desolação, pela fome, pela anemia, pela doença e pela desnutrição que a guerra havia deixado. Foi impossível conter as lágrimas! (Maldita seja a guerra!).

Na semana que se seguiu, fez-se a distribuição dos bens. Parte deles foi entregue aos hospitais Central e do CFB. Outra parte entregou-se à Escola de Formação Profissional da ADPP, situada na comuna da Quissala. Outra parte ainda foi repartida entre os funcionários dos Serviços Comunitários. Para a distribuição dos bens restantes, criaram-se dois postos fixos onde, em pequenas cestas básicas, se atendia a população em geral.

Nesses termos decorreu a Operação da ANAPHUA com o Hércules C130!

O ano de 1995 – O Contratempo, o Reconhecimento e o Continuar

Consequência ainda da mobilização e sensibilização feita nos últimos três meses do ano findo, de Fevereiro a Março de 1995 a Associação conseguiu concentrar em Benguela cerca de 40 toneladas (!) de diversos produtos. Para tristeza de todos, desta vez não foi possível fazê-los chegar à proví­ncia do Huambo, acabando alguns por estragar-se no armazém, outros por serem distribuí­dos aos deslocados e a maior parte deles ficou retida pelo doador, a ONG ORA INTERNACIONAL.

Apesar desse contratempo, a direcção da Associação não desanimou e partiu para outras actividades.

Com vista a dar maior estabilidade e um carácter permanente a Associação, bem como existência jurídica, no dia 8 de Maio, no 1º Cartório Notarial da Comarca de Luanda, a cargo do Notário, licenciado, David Manuel da Silva Velhas, por escritura lavrada com inicio a folhas 29, Livro de Notas nº912-C, foi reconhecida oficialmente a ANAPHUA. Este momento marcou o seu nascimento jurí­dico, ao qual se seguiu a publicação dos seus Estatutos em Diário da Republica (III Série, nº34) datado de 25 de Agosto de 1995.

Alguns meses depois, o presidente da Associação, o secretário e o irmão Kuntz deslocaram-se ao Huambo, transportados por um avião do CICV, numa viagem de reconhecimento. Dos vários, grandes e graves problemas que constataram, o que mais mexeu com a sensibilidade deles e os chocou, foi o facto de as parturientes, no Hospital da Mineira, serem praticamente atendidas ao chão. De regresso a Benguela, conseguiram reunir um lote de camas hospitalares, colchões, lençóis, mantas (em 24 unidades de cada), uma pequena câmara frigorífica, para conservar os medicamentos e vacinas, e um pequeno quite de medicamentos diversos e providenciaram o seu envio imediato ao referido hospital.

Os esforços da Associação em prol da proví­ncia do Huambo neste ano, entretanto, não se resumiram apenas no campo humanitário. Ela foi uma das vozes mais sonantes que, junto do Ministério da Educação, fez-se ouvir, para que reiniciasse o ano lectivo no Huambo e fosse validado, uma vez que a sua duração não tinha sido a normal e aventava-se a possibilidade de ser anulado. Nessa mesma altura, conseguiu fazer deslocar o Ministro da Educação ao Huambo.

A fechar este ano, a Associação, sempre com a presença marcante do presidente e do secretario, sublinhe-se, promoveu vários encontros no Huambo com os quadros locais, para dar a conhecer a sua vida, Estatutos, objectivos e projectos e propôs-se a criação do seu núcleo na proví­ncia. Esses encontros realizavam-se, normalmente, no Colégio São Francisco de Assis onde, entre os vários participantes, salienta-se as presenças notáveis do Pe. Luís Condjimbi e do Pe. André Lukamba.

O ano de 1996 – Mudança de Ares

Para além dos esforços da Associação no sentido de unirem sinergias com o Governo provincial do Huambo, com o objectivo de conseguir apoios de diversa natureza para o sector da educação, porque se reconheceu que, a par da reconstrução que se impunha, a formação do homem era imprescindível; marcaram este a vontade de direcção da Associação de ver instalada a sua sede no Huambo. Para este efeito, realizaram-se várias reuniões com membros do Governo provincial, na sala de reuniões da então Delegação Provincial do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural, com destaque para a participação de dois vice-governadores, solicitando instalações e todo o material necessário.

O ano de 1997

Fruto já dos esforços que a direcção da Associação vinha fazendo, de um tempo a esta parte, para melhorar o sector da educação na província e estabelecer parcerias, a convite da Associação, o Instituto Superior Politécnico de Beja (Portugal) enviou uma delegação de 11 pessoas à Luanda, entre as quais o Dr. José Manuel Morais Cordeiro, médico veterinário, licenciado no Huambo e graduado em Portugal. Com a disponibilidade de um avião da SAL (Sociedade de Aviação Ligeira) a delegação chegou ao Huambo e, com a ajuda do Governo provincial, permaneceu no Planalto Central 5 dias. Dessa visita, a província do Huambo ganhou 2 bolsas de estudo no Instituto Superior Politécnico de Beja e 3 mil tí­tulos de livros diversos.

1998 a 2002 – A Inércia

Depois de cerca de 5 anos de gloria, de muita actividade, de provas e desafios, de alegrias e tristezas, sucessos e alguns insucessos, a Associação hibernou por um logo Inverno de 4 anos de apatia, onde quase nada de registável aconteceu senão mesmo a inactividade, levando os mais pessimistas a vaticinarem já o seu fim.

Se esta Associação não fosse dos naturais e amigos da proví­ncia do Huambo, talvez este momento menos bom tivesse sido mesmo o momento do seu fim. Felizmente, não foi!

2003 a 2005 – O Renascimento

A partir de 2003 abre-se um novo capitulo na vida da Associação: começa a fase de reestruturação. Neste momento, estão em vista alterações aos Estatutos, para os adaptar aos novos tempos e se fixarem novos objectivos, e está em vista também o inicio do processo de regularização de novos membros e das respectivas quotizações, sem deixar de referir a perspectiva de realização de eleições para a continuidade ou renovação dos órgãos sociais. Alem disso, consequência do trabalho de mobilização da direcção da Associação, verifica-se a adesão contínua e massiva de muitos jovens universitários e não só, com novas ideias e projectos e com a vitalidade que caracteriza qualquer jovem, emprestando outra dinâmica a ANAPHUA.

No que toca a actividades realizadas, é conveniente ressaltar a presença da Associação com 20 jovens no 1º Encontro Provincial de Quadros realizado de 2 a 3 de Maio de 2005 no Huambo e a realização de 2 excursões, sendo a primeira rodoviária, em alusão às festas da cidade do Huambo, em 2003 e 2004, estando já em preparação a terceira.

(Este e o percurso trilhado pela ANAPHUA, ressaltando o relevante, desde o seu nascimento ate ao ano de 2005.

Todas as actividades realizadas desde 2003 e que mereçam destaque, bem como todos os planos de realizações, terão o seu tratamento aprofundado nos ícones próprios, ACTIVIDADES e PROJECTOS, respectivamente).

Osvaldo Luacuti Estêvão