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A última homenagem a Nelson Pâncio

Edna Cauxeiro conversa com: Nelson Pâncio Este texto foi publicado na edição do dia 16/10/04 do Jornal de Angola . Foi retomado hoje pelo passamento físico, na passada segunda-feira, de Nelson Pâncio, jornalista e músico de mão cheia.

Competência! Esta pode não ser a maior qualidade que Nelson Pâncio, jornalista da TPA, possui. Mas é, com certeza, a que em Abril do ano corrente o guindou para o leque de apresentadores do Telejornal, quando menos esperava.
“Fiquei surpreso porque nunca vi sinais que apontassem a minha inclusão na apresentação do Telejornal”, refere.
Apesar da surpresa, encarou o novo desafio com muita responsabilidade e sem receio de falhar, uma vez que, segundo afirma, tem já uma certa bagagem a nível do jornalismo. “Eu estava física e psicologicamente preparado. Apenas receei o surgimento de problemas técnicos que me impedissem de fazer o trabalho correctamente”, diz orgulhoso.
Habituado à s câmaras, pois para além do “Ecos e Factos” já apresentou o principal noticiário da Emissora Provincial do Huambo, Nelson Pâncio conserva, para além do jornalismo, uma outra paixão: a música.

O jornalista

Ainda era um menino quando, por influência do pai e de um primo, lhe nasceu o desejo de se tornar jornalista. Conta que o pai ficava muitas horas a ouvir rádio, motivo que cedo o levou a aprender a sintonizar o pequeno aparelho radiofónico que tinha em casa.
O progenitor obrigava-o igualmente a ler o então “Província de Angola”, actual Jornal de Angola, como se estivesse a apresentar um noticiário.
Aos seis anos, um primo que havia se apercebido de que ele gostava muito de cantar e de ouvir rádio, leva-o à Rádio Clube do Moxico para participar de um programa infantil. Recorda-se que entre os meninos que lá se encontravam, era o único negro e que não participou porque não haviam mais vagas. Triste, saiu de lá sem entender muito bem o que se tinha passado.
Esse episódio fez com que a sua paixão aumentasse. Na adolescência, relatava os jogos de rua entre os seus amigos.
Em 1982, aos 22 anos, apercebe-se que a Emissora Provincial do Huambo estava a recrutar novos jornalistas e ciente de que reunia todos os requisitos exigidos para o efeito, inscreve-se e é submetido ao teste de escrita e voz.
Quatro dias depois descobre que tinha sido aprovado e começa a trabalhar como estagiário. Depois de se tornar quadro efectivo da rádio começa, simultaneamente, a colaborar para a TPA.
Em 1988, recebe uma bolsa de estudo da Rádio Nacional de Angola e vai estudar para a Rússia, onde se forma em Comunicação Social. Conta que na altura frequentava o 2º ano do curso de Psicologia do ISCED, mas achou melhor fazer formação no ramo em que trabalhava.
Em 1994, depois de ter concluído o curso superior, regressa ao país e retoma ao seu lugar na RNA em Luanda, mas encontra uma nova direcção, com ideais diferentes dos que deixou, bem como sente “uma certa marginalização” à sua pessoa. Nessa altura rescinde o contrato com aquela estação radiofónica e vira as suas antenas para a TPA.
O facto de já ter colaborado para a única estação televisiva do país, rápido fez com que tomasse tal decisão. Submetido ao teste escrito, o jornalista sai feliz e ingressa em 1997 como quadro efectivo daquela estação.
Inserido no leque de repórteres do programa “Ecos e Factos”, teve a oportunidade de fazer, para além de locução off, um dos géneros jornalísticos que mais gosta: reportagem. Em Setembro do ano passado, recebe a proposta para apresentar o “Ecos e Factos”.
Mantém um relacionamento cordial com os colegas, apesar de já ter notado a existência de “alguma hipocrisia” por parte de muitos destes. “Não compreendo que dois colegas possam encontrar-se e não se saudarem. Faz-me muita espécie as pessoas passarem e olharem de um jeito esquisito, que demonstra que algo não vai bem. Na rádio não existia disso”, desabafa.

Paixão pela música

Igualmente apaixonado pela música, Nelson Pâncio escreveu vários temas, entre os quais “O miúdo”, música interventiva que aborda a situação dos meninos de rua e que a tornou pública, aconselhado pelo artista angolano Moisés Cafala.
Entre os anos 80 e 88, esteve no auge da sua carreira musical, chegando a criar um conjunto com os estudantes do Liceu do Huambo, no qual era o vocalista principal.
Primo da cantora Bela Chicola, sempre recebeu muitos elogios, sobretudo nos festivais em que participava. Ficava sempre entre os três primeiros classificados.
Ainda se recorda de um dos festivais da Canção Política, de onde saiu como segundo classificado, logo a seguir a Zé Cafala, e à frente de Mito Gaspar, Dom Caetano e tantos outros. Nessa altura já era jornalista, mas a Direcção da Rádio, durante os festivais, libertava-o. “Eram muito compreensivos”, diz.
Hoje, por falta de tempo, canta apenas em lugares muito restritos, quando os amigos pedem para o fazer. O seu último espectáculo público aconteceu há dois anos, ao lado de muitos cantores com o nome na praça angolana, entre os quais Bonga, numa organização da Igreja Católica.
Mas o facto de ter ocupado o seu tempo em várias tarefas remuneradas, colocando em último plano o lado artístico, traz-lhe alguma frustração. “Sinto uma leveza na alma quando canto”.
Desde que regressou ao país em 1994, tenta obter patrocínio para gravar uma obra discográfica, mas todas as portas que bateu não se abriram. “Recebi muitas promessas, mas talvez tenha batido as portas muito devagar”, diz.
Mas não canta apenas. Tem igualmente habilidade com alguns instrumentos musicais como guitarra, kissange e bateria. Mas o seu sonho é mesmo aprender a tocar saxofone, instrumento que lhe desperta a “verdadeira paixão”. Ainda não teve essa oportunidade porque o instrumento é muito caro.
Habituado a ser reconhecido pelas pessoas, não encontra nisso um constrangimento. “Estou habituado ao público. Já enfrentei os palcos muitas vezes”.
Mas afirma estar-lhe a ser difícil suportar a imagem que se pretende de um apresentador. Por esse motivo, muitas vezes observa o espanto no rosto das pessoas, quando o vêem a andar num carro de ocasião, num táxi, ou num autocarro.

Carreira docente

A par da TPA, aceitou, pela segunda vez, o convite da direcção do Centro de Formação de Jornalistas (Cefojor), para prestar o seu contributo à quela instituição. Depois de ter transmitido aos formandos os seus conhecimentos sobre “A reportagem em televisão”, Nelson Pâncio debruça-se no momento sobre “O casamento entre o texto e a imagem”.
Gosta de dar aulas, actividade que já desenvolveu no Huambo, quando era professor de português no III nível. “Sou bastante comunicativo. Sinto-me no meio de um grupo de amigos que precisam da minha ajuda. Isto dá-me um enorme prazer. É bom saber que estas pessoas estão a tirar algum proveito da minha presença aí, que estou a contribuir na formação de quadros do jornalismo angolano”.
Pâncio, como foi apelidado pela família e amigos, é o primeiro de seis irmãos e mantém um bom relacionamento com os manos, que esperam muito de si, embora não lhes possa valer sempre.

Na Primeira pessoa

Nome completo: Nelson André
Filiação: André Avelino e Adriana Vissapa
Data de nascimento: 2 de Outubro de 1959
Naturalidade: Luena-Moxico
Estado civil: Divorciado
Filhos: 3
Irmãos: 5
Hobby: Fazer música e ler
Comida: Adora saladas
Bebida: Kissângua de mbundi
Escritor: Manuel Rui Monteiro, Pepetela e literatura técnica
Cantor: Rui Mingas, Paulo Flores e Demis Roussos
Actor: Mel Gibson
Virtude: Simpatia
Defeito: Excesso de ponderação
Habilitações literárias: Formado em Comunicação Social pela Universidade Estatal de São Petersburgo, na antiga União Soviética.
Línguas: kimbundu, umbundu, português, inglês, francês e russo.

Fim-de-semana/JA

  1. Pipo 27.10.08 - 08:44

    Ad perpetuam; paz à alma do nosso irmao. Obrigado ao nosso irmao pela contribuiçao que deu nos campos de comunicaçao e musìca; sirva de exemplo para muitos. Humildade, simplicidade, coragem, ponderaçao e determinaçao caracterizaram a personalidade deste nosso irmao.Lamentà vel que é divorsiado, mas, terà os seus motivos.Vamos condenar o pecado e nao o pecador, este, que se veja diante do espelho, que é o seu Deus. Dià spora/ Pipone

  2. GJS 27.10.08 - 09:23

    Nelson marcou uma epoca. Nestes dias , a Radio vai passando a sua musica e nao ha como nao ter saudades do miudo, do inovaçao petro e de todos os kotas de um Huambo que era mesmo a cidade vida!

  3. JustinoJerónimo 28.10.08 - 09:21

    Em 1988, o músico, cantor, actor, activista político e pacifista norte americano de ascendência jamaicana Harold George Belafonte, Jr. conhecido nos círculos artísticos por HARRY BELAFONTE, visitou, na qualidade de “embaixador de boa vontade da UNICEF”, a cidade do Huambo, em plena época de guerra.
    Agraciado pelo governo local com um almoço no salão de festas do Ruacaná enquanto Nelson Pâncio com uma guitarra apresentava algumas das suas composições, de entre as quais “o miúdo”,H. Belafonte levantou-se da mesa, retirou do bolso do colete que trazia vestido uma câmara V8 (foi pela primeira vez que eu vi tal tipo de câmara de vídeo) e foi junto ao palco colher imagem e som de dois números que Nelson Pâncio estava a apresentar.
    De volta à mesa referiu que Nelson tinha uma excelente e melódica voz, que trabalhada poderia dar em grande cantor e manifestou o desejo de incluir a gravação que acabava de fazer no documentário do seu roteiro por alguns países africanos em prol da UNICEF.
    Quero recordar que Harry Belafonte foi um dos organizadores do grupo de artistas que em 1985 gravou a famosa música ” We are de World “.

    Justino Jerónimo

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