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A Morte de Um Patriarca- À perpetua memoria de Joaquim Pinto de Andrade

joaquim-pinto-de-andrade,-mpla.jpg“Henoc andou sempre nos caminhos de Deus:
(amou a verdade e praticou o bem),
Mas Henoc desapareceu porque
o Senhor o arrebatou consigo”
(Gen 5, 22-24)

Este é o mais antigo elogio fúnebre expresso na tradição bíblica do Antigo Testamento, referindo-se a uma grande personalidade da época anterior ao dilúvio, qual o Patriarca Henoc. Por ocasião da morte recente do Dr. Joaquim Pinto de Andrade, associo este elogio fúnebre sua pessoa, porque no cursus da sua peregrinatio terrena procurou responder s exigências de quem se esforçava viver como um “bom cristão e honesto cidadão”, na intensidade que impulsiona a vivência na ‘caridade política’. O Papa Pio XI dizia que “a política é um ramo do amor ao próximo”, e portanto a caridade “urget nos” com vigor exigente, segundo o ensinamento do ‘Apostolo das gentes.

Este grande “Patriarca” de Angola teve uma experiência de vida toda singular, amadurecida na mais variada e complexa realidade angolana, marcada por um compromisso político de matriz nacionalista, quer ainda enquanto clérigo e mesmo depois enquanto leigo, antes e depois da independência do País. De facto, a história de Angola regista por exemplo que o Dr. Joaquim Pinto de Andrade, com a sensibilidade de um bom jurista, foi um dos grandes percursores para a afirmação do direito s liberdades de reunião e de Associação, com a constituição da primeira Associação Cívica de Angola, nos primórdios dos anos ’90.
A coerência, o sentido de rigor, o respeito pelo Estado e a ‘espiritualidade política’, foram, no meu ponto de vista, os traços distintivos da personalidade de Joaquim Pinto de Andrade. Não obstante as vicissitudes causadas pelas turbulências políticas que se registavam nas diversas épocas em Angola, ele procurava viver com coerência, seguindo o próprio ideal político e sem por isso diminuir em nada a sua relação com a fé. As suas acções, o seu pensamento e os seus escritos podem ser configurados naquilo que Paulo VI (o Papa da Populorum Progressio) indicava falando de politica, como sendo “a mais alta forma de caridade”. Trata-se de uma política elevada, não abstracta mas concreta, não ideológica, e exercida com vontade de colaboração consciente e dialogada com todos.
Joaquim Pinto de Andrade era um homem dotado de uma cultura refinada e de uma simplicidade augusta, características próprias de um cristão que procurava cultivar a “caridade política” no seu ambiente, procurando responder ao dever expresso no apelo feito pelo Concilio Vaticano II, o de cada cristão transmitir, também no mundo da política a fé e a caridade, como eficácia de vida (Gaudium et Spes 42), e trabalhou para que – parafraseando o grande estadista italiano Alcide de Gasperi – se educasse o País ao método democrático e fizesse compreender que “a democracia não é simplesmente um estatuto; a República não é simplesmente uma bandeira: mas é sobretudo uma convicção e um costume; costume de um povo! É necessário que nos convençamos que o regime democrático é verdadeiramente um regime muito duro, que exige um treino e uma vigilância constantes. Uma Nação para ser digna de conservar e promover as liberdades deve ser também compreendida num sentido de responsabilidade, que comporta riscos. Além de mais, uma Nação pode ser formalmente livre na sua Constituição, mas não é vital se para além das liberdades não cultiva a moral, a distinção do bem e do mal”.
Conheci pessoalmente o Dr. Joaquim Pinto de Andrade durante a preparação da IIª Assembleia Juvenil de S. Paulo de Luanda, em 1996, da qual fui moderador, e endereçamos-lhe o convite para que fosse relator numa sessão de trabalhos, ao qual aceitou com generosa cortesia. E na ocasião nos falou sobre “o compromisso político do cristão” luz da exortação apostólica “Christifideles Laici” (sobre os Fieis Leigos) do Papa João Paulo II, de feliz memória. Foi a partir deste encontro de reflexão que se alimentou o estímulo de constituir a Comissão dos direitos humanos da homónima Paróquia. Os nossos encontros, mesmo que se breves no tempo, constituíram as bases para a minha inclinação pelo estudo do ius et iustitia como resumo das ciências jurídicas.
É meu augúrio que a longa via crucis da sua agonia tenha sido oferecido outrossim para que em Angola se ponha fim a uma época de pobreza moral e material, herdadas também pela tragédia da guerra, e se inicie uma nova primavera, em se trabalhe e se produza para o desenvolvimento humano, e se renovem as esperanças para uma autêntica democracia, obviamente com as suas tensões, mas também com empenho, vontade e coerência, para a edificação do bem-comum das futuras gerações.
Enfim, essa é a recordação pessoal que conservo deste grande homem de cultura e de fé, cuja intuição de vida se resume com o ensinamento bíblico segundo o qual: “nisi Dominus aedificaverit domum, invanum laboraverunt qui aedificant eam”, que o Dr. Joaquim Pinto de Andrade conhecia muito bem.
Possa o Senhor acolher nos esplendores da luz perpetua todos aqueles que trabalharam para o bem-comum em Angola. Requiem aeternam dona eis Domine!

Romae, Fevereiro 2008

Por: Domingos das Neves,
membro do Circulo dos Intelectuais
da Africa lusòfona em Roma
e doutorando em direito.

e-mail: ddasneves@hotmail.com

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